sábado, 8 de novembro de 2008

Tudo que sinto, tudo quanto penso

Tudo que sinto, tudo quanto penso,
sem que eu o queira se me converteu
numa vasta planície, um vago extenço
onde há só nada sob o nulo céu.

Não existo senão para saber
que não existo, e, como a recordar,
vejo boiar a inércia do meu ser
no meu ser sem inércia, inútil mar.

Sargaço fluído de uma hora incerta,
quem me dará que o tenha por visão?
Nada, nem o que tolda a descoberta
como o saber que existe o coração.

Fernando Pessoa